terça-feira, 7 de junho de 2011

Chimango

QUARTA RONDA

97


 

O Camaquã ficou cheio,

Deitou água campo fora,

Ali nos veio a caipora,

Que o destino a ninguém poupa:

nem tempo pra mudar de roupa,

Nem pra desatar a espora.


 

98


 

Quando o tempo ansim desaba

E a chuva bate de açoite,

Não há peão que amoite

Ou se deite na macega;

Porque a tropa não sossega,

Quer de dia, quer de noite.


 

99


 

Arisca e redemoinhando

A tropa estava arenguera,

Se não fosse tão campera

A peonada e de truz,

Tinha o dono feito cruz

Na marca e havido porquera.


 

100


 

Dia e meio ali ficou-se

Parado à beira da enchente.

Mas mui pronto, felizmente,

Foi-se apresentando a baixa,

Entrou logo o rio na caixa,

Ansim muito de repente.


 

101


 

Era sinal de mais chuva,

Não havia que hesitar;

Tinha a tropa que passar

A nado e já, sem demora,

Pois, se não passasse agora,

O remédio era voltar.


 

102


 

Pra dar volta do caminho

Muita corage é preciso!

Não é tanto o prejuízo,

E a vergonha que se passa.

Com mais gosto a gente abraça

Uma cascavel de guizo.


 

103


 

O Lautério era o ponteiro

E este tinha caracu;

Num proviso se pôs nu,

Era como capivara,

E guasqueando o malacara

Com seu rabo de tatu,


 

104


 

Pinchou-se n'água e gritou:

"Façam cair bem a ponta,

Que o resto é por minha conta;

Não tenho a pança furada."

E foi caindo a novilhada

Aos magotes, meio tonta.


 

105


 

O gado foi descambando,

Que a correnteza era forte;

Mas o dia era de sorte

E o Lautério, buenacho,

Ganhou porto logo abaixo

Com todo o primeiro corte.


 

106


 

Vendo a ponta do outro lado,

O resto frechou direito.

Não é lá quarquer sujeito,

Não é quarquer mata-cobra

Que executa esta manobra

E passa um gado com jeito.


 

107


 

Rondou-se perto do rio

E em riba dum cocuruto,

Acendeu-se um fogo bruto

Pra roupa a gente enxugar;

Estava tudo a pingar,

Não se tinha nada enxuto.


 

108


 

A noite ficou bonita,

A lua vinha nascendo;

E o Lautério foi dizendo:

Amigos, este luar

Dá saudades de cantar...

E eu canto dês que m'intendo.


 

109


 

Inda tenho que dizer,

O conto não se acabou;

Que vá dormir quem cansou;

Eu cantando é que descanso..."

E o mulato ansim de manso

A história recomeçou:


 

110


 

Aos poucos foi o Chimango

Se prepassando a carancho,

Ia fazendo o seu gancho

E arranjando o seu farnel

À sombra do coronel,

Caladinho e sem desmancho.


 

111


 

Era o mimoso da Estância,

Todos reparavam nisso;

Parecia até feitiço

Aquela predileção!

Tão grande era a proteção

Que recebia o magriço.


 

112


 

Devagar se foi metendo,

Todo cheio de mesura,

Como piolho em costura

Em tudo o que era da casa;

E ansim foi criando asa

Com marcha certa e segura.


 

113


 

C'o tempo o coronel Prates

Se foi sentindo pesado;

Tinha muito trabalhado

Naquela vida campestre,

Onde ele, com mão de mestre,

Tinha tudo preparado.


 

114


 

Um dia chamou o Chimango

E disse: "Escuta, rapaz,

Vais ser o meu capataz;

Mas, tem uma condição:

As rédeas na minha mão,

Governando por detrás.


 

115


 

Eu não quero ir mais ao campo,

Já estou ficando grisalho;

Porém, deixando o trabalho,

Sou sempre o dono da casa.

Tu vais recolhendo a vaza,

Eu manejando o baralho.


 

116


 

Sei que tu és maturrango,

Porém, dou-te a preferência.

Nisto está minha ciência,

Escolhendo-te entre os outros;

Eles sabem domar potros,

Mas, tu tens a obediência.


 

117


 

Toda a minha gente é boa

Pra parar bem um rodeio,

Boa e fiel, já lo creio,

Mas, eu procuro um mansinho,

Que não levante o focinho

Quando eu for meter-le o freio.


 

118


 

Quero que me sirvas bem

E não me estragues o povo.

És ainda muito novo,

Pode que te desconheçam;

Pra que todos te obedeçam,

Eu vou te pôr um retovo.


 

119


 

O retovo são conselhos

E normas de proceder,

Que tu precisas saber

E conhecer bem a fundo,

Todos vivem neste mundo,

Mas, poucos sabem viver.


 

120


 

Eu podia tomar outro

Pra encarregar das prebendas;

Mas, pra evitar contendas

E que briguem por engodos,

Pego o mais fraco de todos;

E assim quero que m'intendas."


 

121


 

Então chamou o Aureliano,

Pardo velho mui antigo,

Que conservava consigo

Assim como secretário;

Espécie de relicário

De família, muito amigo.


 

122


 

"Tu que és um conhecedor

De tudo como se faz,

Ensina-me a este rapaz

As manhas de governar,

Que ele vai desempenhar

O cargo de capataz.


 

123


 

Leva-o lá para o teu rancho,

Vai-lhe ensinando os segredos;

Que ele só conta nos dedos

E não tem nenhuma prática;

Ensina-lhe a tua gramática

Pra desmanchar os enredos."


 

124


 

As ordes foram cumpridas

Desde logo a todo risco.

O Aureliano era um corisco,

Finório, matriculado,

Mulato velho marcado,

Devoto de S. Francisco.


 

125


 

À sombra de uma figueira

Sentados num cabeçalho,

O Aureliano, sem atalho,

Disse: "Agora, meu menino,

Eu vou te dar o ensino

Do que aprendi no trabalho.


 

126


 

Pra pegar um pescoceiro

Que há sempre algum na tropilha,

Desses que pouco se encilha,

Não precisas ter cansaço;

Que os bobos puxem o laço,

Fica-te tu na presilha.


 

127


 

Quando um erro cometeres

(O que bem pode se dar)

Não deves ignorar

Como se sai da rascada:

A culpa é da peonada;

O patrão não pode errar.


 

128


 

Quando vires um peão,

Mesmo o melhor no serviço,

Ir pretendendo por isso

Adquirir importância...

Bota pra fora da Estância,

Mas, sem fazer rebuliço.


 

129


 

A regra é – cabresto curto –

Pra ter tudo nos seus eixos;

Sofrenaço pelos queixos,

De vez em quando convém...

Mesmo aos que procedem bem,

Queixa-te dos seus desleixos.


 

130


 

Cada qual tem o seu fraco

E também sua pereva,

É por aí que se os leva,

Mas, sem dar a perceber;

Está tudo em se meter

Com jeito o porco na ceva.


 

131


 

Predominar sobre todos,

E mandar com muito arrojo;

Da adulação não ter nojo,

E tirar dela partido.

Fica disto convencido:

Quem ordenha bebe o apojo.


 

132


 

Não percas isto de vista:

C'os cotubas ter paciência,

C'os fracos muita insolência,

Com milicos muito jeito;

Não ter amigos – do peito;

Nisto está toda a ciência.


 

133


 

Dizem que não crer é bom,

Pra quem ser forte deseja;

Mas tu deves ir à igreja

Bater nos peitos também;

E te fará muito bem

Pedir que ela te proteja.


 

134


 

Tu vais receber a Estância

E dirás a toda gente

Que tu és lugar tenente,

Que vais mandar como dono;

Mas não penses que este abono

Seja moeda corrente.


 

135


 

Conhece bem teu papel,

Não largues da mão o prumo;

Por ti só não dês o rumo,

Nem resolvas por ti só;

Tu carregas o bocó

E o dono é quem pica o fumo.


 

136


 

E para te conservares,

Tu que na lida inda és grego

E desfrutares o emprego

Sem barulho e sem tropel...

Cuidado com o coronel,

Não pises fora do rego."


 

137


 

Deste modo é que o Chimango,

Que não valia um cigarro,

Foi tirando o pé do barro

C'uma potra nunca vista

E alevantando a crista,

Puxando grosso o pigarro.


 

138


 

Por aquele vizindário

Correu logo a novidade.

Mas, será mesmo verdade?

O coronel ficou louco!

Como se meteu no coco

Tamanha barbaridade?


 

139


 

Mas, o certo é que o Chimango

Foi logo colhendo a linha;

Não entrou mais na cozinha

E se ausentou do galpão;

Deu até pra guapetão,

Ele, que era uma galinha.


 

140


 

Toda a gente de S. Pedro

(Assim se chamava a Estância)

Com alguma relutância

Foi aceitando o intruso,

Que o coronel pra seu uso

Encheu de tanta importância.


 

141


 

O povo é como o boi manso,

Quando novilho atropela,

Bufa, pula, se arrepela,

Escrapeteia e se zanga;

Depois... vem lamber a canga

E tornar-se amigo dela.


 

142


 

Home é bicho que se doma

Como qualquer outro bicho;

Tem, às vezes, seu capricho,

Mas, logo larga de mão,

Vendo no cocho a ração,

Faz que não sente o rabicho.


 

143


 

Também co' aquela mudança,

Ninguém notou diferença.

Ficaram todos na crença

Que o dono é quem dirigia;

O que o Chimango fazia

Dependia de licença.


 

144


 

Tinhas as penas de pavão,

Mas não passava de gralha,

Era figura de palha

Para espantar passarinho;

Armação de pau de pinho

Que nem serve pra cangalha.


 

145


 

Ou por sorte, ou por feitiço,

Ou capricho do destino,

O certo é que o teatino

Tornou-se enfim um graúdo,

Chegando a abocanhar tudo,

Tornando-se um pente fino.


 

146


 

Foi ansim como les conta,

Neste fogão, junto ao rio,

Quem muita coisa já viu

Quer na guerra, quer na paz;

Chimango foi capataz

Por muitos anos a fio.


 


 

sábado, 23 de outubro de 2010

O INDIVIDUALISMO DE DOM RIGOBERTO


 

Do Livro "Os Cadernos de dom Rigoberto", de Mário Vargas Llosa


 


 

"[...] o feminismo é uma categoria conceitual coletivista, isto é, um sofisma, pois pretende encerrar, dentro de um conceito genérico homogêneo, uma vasta coletividade de individualidades heterogêneas, nas quais diferenças e disparidades são pelo menos tão importantes (seguramente mais) quanto o denominador comum clitorídeo e ovárico. [...] Para apreender a realidade última e intransferível do humano, neste domínio, como em todos os outros, há que renunciar ao rebanho, à visão tumultuária, e recolher-se ao individual. Resumindo, direi à senhora que todo movimento que pretenda transcender (ou relegar a segundo plano) o combate pela soberania individual, antepondo-lhe os interesses de um coletivo - classe, raça, gênero, nação, sexo, etnia igreja, vício ou profissão -, parece-me uma conspiração para enredar ainda mais a maltratada liberdade humana. Essa liberdade só alcança seu pleno sentido na esfera do indivíduo."


 

"Nada contribuiu tanto nestes tempos, mais ainda do que as ideologias e religiões, para promover o desprezível homem-massa, esse robô de reflexos condicionados, e para a ressurreição da cultura do primata de tatuagem e tapa-sexo, emboscado atrás da fachada da modernidade, quanto a divinização dos exercícios e jogos físicos operada pela sociedade dos nossos dias. [...] O esporte, na época de Platão, era um meio, não um fim, como voltou a ser nestes tempos municipalizados da vida. [...] Onde está o heroísmo em virar a canjica ao volante de um bólido com motores que fazem o trabalho em vez do homem, ou em retroceder de ser pensante a débil mental, com miolos e testículos encolhidos pela prática de atalhar ou fazer gols por empreitada, para que multidões insanas se dessexualizem com ejaculações de egolatria coletivista a cada tento marcado? As atividades e aptidões físicas chamadas esportes não aproximam o homem atual do sagrado e do religioso, afastam-no do espírito e o embrutecem, saciando seus instintos mais ignóbeis: a vocação tribal, o machismo, a vontade de domínio, a dissolução do eu individual no amorfo gregário."


 

"Como o mundo avança aceleradamente para a desindividualização completa, para a extinção desse acidente histórico, o reinado do indivíduo livre e soberano, que uma série de acasos e circunstâncias havia possibilitado (para um número reduzido de pessoas, é claro, e em um número ainda mais reduzido de países), estou mobilizado para o combate, com meus cinco sentidos e durante as vinte e quatro horas do dia, a fim de retardar o máximo que puder, no que a mim concerne, essa derrota existencial. [...] É verdade: sou um antissocial na medida das minhas forças, que por desgraça são fraquíssimas, e resisto à gregarização em tudo aquilo que não ameaça minha sobrevivência nem meus excelentes níveis de vida. Tal como você está lendo. Ser individualista é ser egoísta (Ayn Rand, The virtue of selfishness), mas não imbecil."


 

"Se alguma coisa eu sou nessa matéria, sou agnóstico. Desconfiado do ateu e do descrente, a favor de que as pessoas creiam e pratiquem uma fé, pois, de outro modo, não teriam vida espiritual alguma e o selvagismo se multiplicaria. A cultura - a arte, a filosofia, todas as atividades intelectuais e artísticas laicas - não substitui o vazio espiritual que resulta da morte de Deus, do eclipse da vida transcendente, exceto em uma reduzidíssima minoria (da qual faço parte). Esse vazio torna as pessoas mais destruidoras e bestiais do que normalmente o são. Ao mesmo tempo que sou a favor da fé, as religiões em geral me incitam a tapar o nariz, porque todas elas implicam o rebanhismo processionário e a abdicação humana e pretendem enredar os desejos. [...] Eu fico em minha contradição, que é também, afinal, uma fonte de prazer para um espírito dissidente e inclassificável como o meu. Contra a institucionalização dos sentimentos e da fé, mas a favor dos sentimentos e da fé."


 

"O senhor e eu sabemos, amigo siracuso, que o fetichismo não é o 'culto dos fetiches' como diz mesquinhamente o dicionário da Academia, mas sim uma forma privilegiada de expressão da particularidade humana, uma via de que o homem e a mulher dispõem para traçar seu espaço, marcar sua diferença em relação aos outros, exercitar sua imaginação e seu espírito antirrebanho, ser livres. [...] a descoberta do papel central do fetichismo na vida do indivíduo foi decisiva em meu desencanto com as utopias sociais - a idéia de que era possível, coletivamente, construir a felicidade, o bem, ou encarnar qualquer valor ético ou estético -, em minha passagem da fé ao agnosticismo, e na convicção que agora me anima, segundo a qual, já que o homem e a mulher não podem viver sem utopias, a única maneira realista de materializá-las é transferi-las do social para o individual. Um coletivo não pode organizar-se para alcançar nenhuma forma de perfeição sem destruir a liberdade de muitos, sem levar de roldão as belas diferenças individuais em nome dos pavorosos denominadores comuns."


 

"Na verdade, por trás de suas arengas e bandeiras em exaltação a este pedacinho de geografia salpicado de balizas e demarcações arbitrárias, onde vossa senhoria vê personificada uma forma superior da história e da metafísica social, não há outra coisa senão o astuto aggiornamento do antiquíssimo medo primitivo de emancipar-se da tribo, de deixar de ser massa, parte, para transformar-se em indivíduo. [...] O cordão umbilical que os enlaça através dos séculos chama-se pavor ao desconhecido, ódio ao diferente, rechaço à aventura, pânico à liberdade e à responsabilidade de inventar-se a cada dia, vocação de servidão à rotina, ao gregarismo, recusa a descoletivizar-se para não ter de enfrentar o desafio cotidiano que é a soberania individual. O patriotismo, que, na realidade, parece uma forma benevolente do nacionalismo - pois a 'pátria' parece ser mais antiga, congênita e respeitável do que a 'nação', ridícula engenhoca político-administrativa manufaturada por estadistas ávidos de poder e intelectuais em busca de um amo, isto é, de mecenas, isto é, de tetas prebendeiras a sugar -, é um perigoso mas efetivo álibi para as guerras que dizimaram o planeta não sei quantas vezes, para as pulsões despóticas que consagraram o domínio do forte sobre o fraco, e uma cortina de fumaça igualitarista cujas nuvens deletérias indiferenciam os seres humanos e os clonam, impondo-lhes, como essencial e irremediável, o mais acidental dos denominadores comuns: o lugar do nascimento."


 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO

"Templos ou igrejas, pagodes ou mesquitas, em todos os países, em todos os tempos, testemunham, no seu esplendor e grandeza, essa necessidade metafísica, que vivaz e indestrutível, mui de perto acompanha no homem a necessidade física. Se estivéssemos dispostos à sátira, poderíamos acrescentar, é na verdade, que se trata dum modesto comparsa, que nada custa satisfazer. Fábulas grosseiras, contos insípidos bastam por vezes para contentá-lo. E, com a só condição de lhe terem sido inculcados bem cedo, aceita-os voluntariamente como explicações de sua existência e como apoios de sua moralidade. Leia-se, por exemplo, o Alcorão: este mau livro bastou para fundar a religião de um mundo todo, para satisfazer durante doze séculos a necessidade metafísica de inumeráveis milhões de homens, para estabelecer sua moral, para introduzir nesta um supremo desprezo pela morte e para lhe inspirar o fanatismo de guerras sangrentas e de longínquas conquistas. Apresenta-nos o teísmo sob sua forma mais triste e mais pobre. É possível que se perca muito na tradução, mas eu não pude descobrir nele um só pensamento de algum valor. Isto prova que a capacidade metafísica não caminha a par com a necessidade metafísica".


 


 

Schopenhauer

terça-feira, 31 de agosto de 2010

THE HAVEN

O CORVO, DE POE,

TRADUZIDO POR

FERNANDO PESSOA


 


 

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,

E já quase adormecia, ouvi o que parecia

O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.

"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais."


 

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,

E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.

Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada

P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!


 

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo

Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!

Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,

"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;

Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isto, e nada mais".


 

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,

"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;

Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,

Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,

Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.


 

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,

Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.

Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,

E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -

Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isso só e nada mais.


 

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,

Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.

"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.

Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."

Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

"É o vento, e nada mais."


 

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,

Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.

Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,

Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,

Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

Foi, pousou, e nada mais.


 

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura

Com o solene decoro de seus ares rituais.

"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,

Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!

Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

Disse o corvo, "Nunca mais".


 

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,

Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.

Mas deve ser concedido que ninguém terá havido

Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,

Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome "Nunca mais".


 

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,

Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.

Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento

Perdido, murmurei lento, "Amigos, sonhos - mortais

Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".

Disse o corvo, "Nunca mais".


 

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,

"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,

Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono

Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,

E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais

Era este "Nunca mais".


 

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,

Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;

E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira

Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,

Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele "Nunca mais".


 

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo

À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,

Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando

No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,

Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!


 

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso

Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.

"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te

O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,

O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".


 

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!

Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,

A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,

A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais

Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

Disse o corvo, "Nunca mais".


 

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!

Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.

Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida

Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".


 

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!

Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!

Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!

Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!

Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".


 

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda

No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.

Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,

E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais,

Libertar-se-á... nunca mais!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Deus, um delírio

Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai

morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu

lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da

Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats,

cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas

possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais.

Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa

banalidade, que aqui estamos...

Nós, uns poucos privilegiados que ganharam na loteria do nascimento,

contrariando todas as probabilidades, como nos atrevemos a choramingar

por causa do retorno inevitável àquele estado anterior, do qual a enorme

maioria jamais nem saiu?


 

Richard Dawkins

terça-feira, 8 de junho de 2010

Terra em Chamas

Nós buscamos o futuro. Olhamos sua névoa e esperamos ver algum marco que leve o destino a fazer sentido. Durante toda a vida tentei entender o passado porque ele era muito glorioso, e vemos restos dessa glória por toda a Britânia. Vemos os grandes palácios de mármore que os romanos fizeram, viajamos por estradas que eles abriram e atravessamos pontes que eles construíram, e tudo isso está sumindo. O mármore racha com o gelo do inverno e as Paredes desmoronam. Alfredo e as pessoas como ele acreditavam estar trazendo a civilização a um mundo maligno e decadente, mas tudo o que ELE fez foi estabelecer regras. Regras demais, porém as leis eram apenas uma expressão de esperança, porque a realidade eram os burhs, as muralhas, as lanças nas fortificações, o brilho de elmos ao alvorecer, o medo de cavaleiros com cota de malha, as pancadas dos cascos e os gritos das vítimas. Alfredo sentia orgulho de suas escolas, seus mosteiros e suas igrejas ricas de prata, mas essas coisas eram protegidas por lâminas. E o que era Wessex, comparado a Roma?

É difícil ordenar os pensamentos, mas sinto, sempre senti, que deslizamos da luz para a escuridão, da glória ao caos, e talvez isso seja bom. Meus deuses nos dizem que o mundo terminará no caos, assim talvez estejamos vivendo os últimos dias e talvez até eu viva o suficiente para ver as montanhas racharem, o mar ferver e os céus queimarem enquanto os grandes deuses lutam. E diante dessa grande perdição, Alfredo construía escolas. Seus padres corriam de um lado para o outro como camundongos na palha podre, impondo suas regras como se a mera obediência pudesse impedir o fim. Não matarás, pregavam eles, depois gritavam para que nós, guerreiros, trucidássemos os pagãos. Não roubarás, pregavam, e forjavam documentos para roubar terras dos homens. Não cometerás adultério, pregavam, e fornicavam com as mulheres de outros homens como lebres enlouquecidas na primavera.

Não faz sentido. O passado é uma esteira de navio riscada num mar cinzento, mas o futuro não tem marco.


 

  • Excerto do livro Terra em Chamas de Bernard Cornwell.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Os Carros do Inferno

Pequenos excertos retirados do livro de Sven Hassel, intitulado Os Carros do Inferno.


 

Um soldado na guerra é como um grão de areia na

praia.

As vagas submergem-no, aspiram-no, repelem-no, e aspiram-no

de novo.

E ele desaparece sem que ninguém dê por isso e sem

que ninguém se preocupe com o seu destino.


 


 


 


 

Na realidade, Porta era um ser à parte. Ninguém suspeitaria

de que existisse nele um fundo de rectidão, e, contudo,

aquele filho da rua não tinha uma natureza perversa

Ali sentado, sujo e repugnante, de monóculo e chapéu alto, a

beber e a arrotar, tínhamos de admitir que não parecia uma

personagem lá muito recomendável. Porta era, sem dúvida

o protótipo do soldado veterano, do mercenário calejado

que, sem pestanejar, era capaz de espetar a sua faca no

peito do adversário, sem deixar de rir, limpando em seguida

a lâmina à manga. Era também um homem que não hesitava

em disparar uma bala dundum na nuca de um oficial

que odiasse, como sucedera com o capitão Meyer. Porta

assassinava a sangue-frio, por causa de um bocado de pão,

e seria muito capaz de fazer ir pelos ares um abrigo cheio

de gente se lhe dessem ordem para isso.

Mas quem é que o transformara nesse animal feroz?

A mãe? Os camaradas? A escola? Não: o Estado totalitário,

a caserna e o fanatismo dos militares. Porta aprendera

o catecismo nazi, que é igual em todos os governos

totalitários e se resume nestas poucas frases: faz o que

quiseres, mas nunca te deixes apanhar; sê duro e cínico, de

contrário serás -esmagado; se te mostrares humano, estás

perdido. Fora esta a formação de Porta.

Experimentem penetrar dentro dos limites interditos da

caserna e vejam com os vossos olhos; ficareis pálidos de

vergonha. Todos esses militares, tesos como paus de vassoura,

que passam a vida a fazer peito, de rosto sem lábios,

de olhos de aço inexpressivos, imaginai-os observados por

um médico psiquiatra. Na vossa opinião, qual seria o diagnóstico?

Se conheceis, como eu, essa inquietante raça, não

tereis um momento de hesitação.


 

Tinham conseguido fazer calar em nós tudo o que havia

de humano.

Conhecíamos apenas a terrível linguagem das armas.

Os nossos conhecimentos de anatomia eram iguais aos

de um médico e podíamos designar com segurança o sítio

onde o tiro ou a facada seriam mais dolorosos. O Diabo

devia estar, sem dúvida, a rir-se atrás das nossas costas.


 

Os jovens de hoje não conhecem a guerra e o que têm

tido ocasião de ler até agora não lhes dá dela uma imagem

fiel. Procurei dar essa imagem nos meus livros, e se, desta

maneira, conseguir contribuir para que a guerra não volte,

posso dar por cumprida a minha missão.