sábado, 1 de setembro de 2007

PODEM, OS ROMANCES DE CAPA E ESPADA SEREM SALUTARES?

Neles não havia piedade, nem sequer essas faíscas de humanidade que às vezes vislumbramos mesmo nos mais desalmados. Frades, juiz, escrivão e verdugos comportavam-se com uma frieza e com um distanciamento extremamente rigorosos, e era isso precisamente o que mais pavor provocava; mais ainda que o sofrimento que eram capazes de infligir: a determinação gelada de quem se sabe protegido por leis divinas e humanas, não pondo em dúvida, nem por um momento, a licitude do que faz. Depois, com o tempo, aprendi que, embora todos os homens sejam capazes do bom e do mau, os piores são sempre aqueles que, quando administram o mal, o fazem amparando-se na autoridade de outros, na subordinação ou no pretexto das ordens recebidas. E se terríveis são aqueles que dizem agir em nome de uma autoridade, de uma hierarquia ou de uma pátria, muito piores são aqueles que se acham justificados por qualquer deus. A ter de escolher quem enfrentar na hora, às vezes inevitável, de se relacionar com gente que pratica o mal, preferi sempre aqueles capazes de se justificarem apenas com a sua própria responsabilidade. Porque nas celas secretas da Toledo pude aprender, quase à custa da minha vida, que não há nada mais desprezível ou perigoso que um malvado que adormece todas as noites com a consciência tranquila. Especialmente quando isto é concomitante com a ignorância, a superstição, a estupidez e o poder, que frequentemente andam juntos. E é ainda pior quando se age como exegeta de uma só palavra, seja do Talmude, da Bíblia, do Corão ou de qualquer outra, escrita ou por escrever. Não sou amigo de dar conselhos — ninguém é esfaquedo em cabeça alheia —, mas aqui vai um de graça: desconfiem sempre vossas mercês de quem é leitor de um só livro.


Retirado do segundo volume das Aventuras do Capitão Alatriste de Arturo Pérez-Reverte, intitulado Limpeza de Sangue Editora Asa.