segunda-feira, 17 de março de 2008

A SEMANA SANTA

 

I

Não podendo dormir no horror da sepultura,

Na podridão escura

Da terra imunda e fria,

Voltaire despedaçando o féretro chumbado,

E cingindo o lençol ao corpo esverdeado

Ressuscitou um dia.

Pairava-lhe no lábio o riso fulminante

Com que outrora gravou nas crenças virginais,

Como num rico espelho a aresta dum diamante,

Tamanhas abjecções, sarcasmos tão brutais.

Mas era ao mesmo tempo o riso heróico e bom

Que os tiranos prostrava em mísero desmaio,

Riso a que sucedeu o verbo de Danton,

Como um trovão sucede ao lampejar dum raio.

Dormira febrilmente um longo sono inquieto

Enquanto andava o mundo a executar-lhe os planos,

E vinha ver enfim, diabólico arquitecto,

O estado da sua obra a cabo de cem anos.

Ó sátiro divino, ó monstro da ironia,

Génio que Deus conduz e Satanás impele,

Que esmagas hoje a infame, e escreves no outro dia

Com a tinta do enxurro os versos da Pucelle;

Tu és feito de luz e feito de baixezas,

Feito de heroicidade e de protérvias más;

Corromperam-te a alma os braços das duquesas

E encarquilhou-te a face o rir de Satanás.

Rasgas ao mundo novo a estrada do futuro

Cantando ao mesmo tempo o sórdido deboche:

como um Juvenal dentro dum Epicuro,

Ó arlequim-titã, ó semideus-gavroche.

Nesse lábio mordente esse sorriso eterno

Faz frio como a ponta aguda duma espada;

O teu génio, Voltaire, é como o Sol do Inverno,

Dá muitíssima luz, mas não aquece nada.

Em vão por sobre a paz dos campos desolados

Ele entorna do azul seus vivos esplendores:

Não cantam rouxinóis nas sebes dos valados,

Não faz nascer o trigo e germinar as flores.

É que nunca soubeste o que é a dor profunda

Que estala fibra a fibra os grandes corações:

É que nunca choraste, ó Prometeu carcunda,

Como Dante chorou, como chorou Camões.

Voltaire, ó rachador de velhos preconceitos,

Aos golpes do teu riso, a golpes de machado

Caíram sobre a terra atléticos, desfeitos

Na floresta da noite os cedros do passado.

Mataste a tradição, o dogma, o privilégio,

Assobiaste a rir a fé de nossos pais,

E andaste pelo azul, hediondo sacrilégio!,

A correr à pedrada os deuses imortais.

Empunhando o alvião terrível da verdade

Tu minaste, Voltaire, infatigavelmente

O alicerce de bronze à velha sociedade.

Do teu riso cruel a onda dissolvente

Foi como os vagalhões, aríetes do mar,

Que cavam sob a rocha um tão profundo abismo

Que a rocha quase fica assente sobre o ar.

Tu minaste, Voltaire, a rocha despotismo

E depois de ter feito a escavação nocturna,

Como fazem no monte as feras sanguinárias,

Encheste até à boca essa medonha furna

Com barris de petróleo e bombas incendiárias.

E enquanto o níveo pé soberbo de Antonieta

Da França estrangulava a suplicante voz,

Tu lançavas de longe a trágica luneta,

Velho Fauno cruel, rindo com riso atroz.

Até que um dia enfim exausto de cansaço,

Sentindo já sem força as garras de condor,

Tu chegaste, Arouet, sem te tremer o braço,

Ao rastilho da mina o fogo abrasador.

Cobriu-se então o azul duma tormenta escura,

Ecoou lugubremente o estrondo do trovão,

Viste arder o rastilho até uma certa altura,

E foste-te esconder, a rir, na sepultura

Mal se ia aproximando a hora da explosão.

Quando ressuscitou, Voltaire ficou atónito

Vendo os nossos chapéus e as nossas calças pretas,

Mas como desejava andar no mundo incógnito,

E não ler o seu nome impresso nas gazetas,

Oh, a necessidade a quanto nos obriga!,

Voltaire o diplomata, o cortesão taful

Largou a juba d'oiro, a cabeleira antiga,

E foi vestir-se à moda aos armazéns do Pool.

Na Sexta-Feira Santa os templos percorria

Voltaire para observar os crentes verdadeiros

No dia da paixão, no lutuoso dia

Em que se faz de Cristo o deus dos confeiteiros.

Arouet, ao ver aquela estúpida farsada,

Foi acordar Jesus na sua campa ignorada

E disse-lhe:

II

– «Anda ver, ó Cristo, estes bandidos.

Que rostos tão floridos,

Que belas digestões!

O pálido Jesus, ó cismador antigo,

Levanta-te da campa e vem dai comigo

A ver estes ladrões.

Nós vamos passear juntos, de braço dado,

Mas vestirás primeiro um fraque bem talhado

De fino pano inglês,

E hás-de pôr na cabeça este chapéu redondo,

Para ficar gentil, para ficar hediondo

Como qualquer burguês.

Tu odeias decerto estas casacas pretas,

Mas não quero, Jesus, que tu me comprometas

Com esse balandrau muitíssimo ratão.

Se eu fosse ao boulevard contigo e alguém me visse,

Ninguém, ó flor do tom! ninguém, ó canalhice!

Me apertaria a mão.

O talhe dum colete e os pontos duma luva,

A menor frioleira, um simples guarda-chuva,

Substituíram hoje as regras de Lavater:

Passando eu por acaso enodoado e roto,

Diriam: «Que chapéu! que pulha! que maroto!

Aquele homem não tem nem sombras de carácter!»

Anda, veste a farpela. Agora, sim senhor!

Muito grotesco és, meu pobre Redentor!

Vais a comprometer-me, ó alma do Diabo!

Que figura infeliz, inteiramente chata...

Pelo menos corrige o laço da gravata

E põe na boutonière este jasmim do Cabo.

Necessitas de ter maneiras delicadas

E a arte de dizer uns pequeninos nadas

Com chic e distinção. Ser Deus é muito bom;

Mas é preciso ser um deus da fina roda,

Um deus do nosso tempo, um deus da última moda,

Um deus petit-crevé, um deus à Benoiton.

Se amanhã por acaso alguém, medita nisto.

Te fosse apresentar – Sua Exª o Cristo –

Nos devotos salões do bairro São Germano,

Ó escândalo! ó farsa! ó padre omnipotente!,

As duquesas, sorrindo aristocratamente,

Achavam-te decerto um Deus provinciano.

Saiamos para a rua. A gente anda de luto,

Porque consta que outrora um visionário, um bruto,

Se deixara morrer pregado num madeiro.

E hoje em memória disto os pais compram às filhas

Três caixas de pastilhas

Na loja dum doceiro.

Quanta mulher formosa aí nesses balcões!

Que lindas tentações,

Meu pálido judeu!

Deixa por um instante as regiões serenas;

Namora estas pequenas,

Que elas hão-de gostar do teu perfil hebreu.

Arranja um casamento e aprende a ter juízo.

A noiva pouco importa; o dote é que é preciso

Discuti-lo. Olha lá, os pais que sejam velhos!...

Que vá para o diabo o reino da Utopia!

E hão-de-te nomear sócio da academia

E, quem sabe! talvez barão dos Evangelhos.

Penetremos na igreja a ver esta farsada.

Uns entram para ver a casa iluminada,

Os dandys é por chic, os velhos por decoro;

Estes é para ouvir tocar umas quadrilhas,

E os outros, que sei eu!... para vender as filhas,

Para matar o tempo ou arranjar namoro.

Lá vai o pregador dizer a sermonata:

Tossiu, cuspiu, sorriu, bebeu a sua orchata

E começa a falar. Tem uns bonitos dentes.

E com gesto facundo e voz amaneirada

Recita uma enfiada

De tropos excelentes.

Acabou-se. O auditório

Gostou do farelário

Como gostámos nós.

Soltam-se exclamações por entre algum rumor:

Muito bem! muito bem! É um grande pregador!

Foi um rico sermão! E que bonita voz!

E é esta a tua casa, ó meu pobre Jesus!

Não te bastou a cruz;

Era preciso o altar.

Que destino cruel, que trágica ironia!

Nasces na estrebaria,

Vives no lupanar!

Desfila pela rua imensa multidão.

Saiu a procissão;

Paremos um instante. É curioso isto.

Que farsas imbecis, que velhas pompas mudas!

Lá vai pegando ao pálio o teu amigo Judas,

Que está, como tu vês, comendador de Cristo!

Os anjos teatrais caminham lentamente

Com asas de galão feitas expressamente

Nas lojas de Paris.

Pobres anjos do Céu! querem martirizá-los:

Vão cheios de suor e apertam-lhes os calos

As botas de verniz.

Agora passas tu num palanquim bordado.

Coitado!

Muito trabalho tem quem faz religiões!

Repara como vais, olha que bela túnica:

É pavorosa, é única!

Of'receu-ta um burguês num dia de eleições.

E atrás do velho andor e atrás das velhas opas

Vão desfilando agora os esquadrões das tropas

Com gesto marcial.

Tu que amavas os bons, os simples e as crianças,

Seguido como os reis dum matagal de lanças.

Meu pobre general!

Terminou a função. É negro o firmamento.

Ai que aborrecimento!

Ó meu Jesus, que tédio!

Para poder dormir, para poder cear,

Que há-de a gente fazer? vamos ao lupanar,

Não há outro remédio.

Ali tens, meu amigo, os cónegos vermelhos:

Que rostos joviais, brunidos como espelhos.

Que riso debochado e gesto vinolento!

E à noite, a esta hora, uns padres sem batinas

Decerto não virão pregar às concubinas

O 6º mandamento!

Os teus guardas fiéis, depois da procissão.

Já roucos de cantar um velho cantochão,

Deixaram-te no templo abandonado e só.

Uns vieram beijar as carnes prostituídas,

E os outros foram ler no quarto às escondidas,

Romances de Bellot.

E como a noite é linda! a branca Lua passa,

Ostentando na fronte a palidez devassa

Duma infeliz mulher.

Quando tudo fermenta e tudo anda de rastros

Já não deve admirar que a síf'lis chegue aos astros

E precisem também xarope de Gibert!

Meu pai, vamos cear. É quase madrugada;

É a hora do tom, a hora consagrada

Para os ricos festins à viva luz do gás.

É a hora da morte, a hora do ataúde,

É a mesma em que repousa a cândida virtude

Nos braços de Faublas.

Anda, não tenhas medo, entra no restaurante.

A sala está repleta. A púrpura brilhante

Dos desejos inflama os sonhos tentadores,

O champanhe sacode os crânios embriagados,

E os crimes sensuais e os vícios delicados

Rompem num turbilhão de venenosas flores.

O punch, iluminando as faces cadavéricas,

Faz-nos imaginar as saturnais quiméricas

Que à noite deve haver na morgue de Paris,

Aonde as cortesãs, mais roxas que as violetas,

Ao luar cantarão as verdes cançonetas

Das podridões gentis.

Volteiam pelo ar os ditos picarescos,

Elásticos, febris, doidos, funambulescos.

Como gnomos de luz vestidos de histriões,

Dançando, tilintando os guizos argentinos,

Fazendo à luz do gás trejeitos libertinos

Com o riso cruel das alucinações.

Ceemos. Manda vir as coisas que preferes;

E que nos vão buscar duas ou três mulheres,

Que as há perto daqui;

O mais, pede por boca, ó meu divino mestre:

Mas escuta, olha lá, não peças mel silvestre,

Porque já se não usa e riem-se de ti.

E agora é destampar a rubra fantasia!

Bebe, pragueja, ri, inventa, calunia,

Anda! mostra que tens espírito, ladrão!

Não quero ver chorar os olhos teus contritos;

Sê canalha com graça, infame com bons ditos,

Vamos, sensaborão!

Conta-nos em voz alta histórias bem galantes,

Segredos irritantes,

Vergonhas sensuais,

Adultérios da moda, escândalos, misérias,

Tudo isto, já se vê, com óptimas pilhérias,

Bastante originais.

Tu precisas perder esse teu ar de adventício

E um certo horror ao vicio,

Dum pedantismo ignaro;

Formosura sem vício é coisa que não tenta;

O vício, meu amigo, é bom como a pimenta,

E o defeito que tem é ser um pouco caro.

Conversemos, alegra a tua fronte augusta,

Sê espirituoso, inventa, o que te custa!

Uma infâmia qualquer, muitíssimo engenhosa...

Tens um amigo? bem, vamos caluniá-lo;

Tens amantes? melhor, eu dou-te o meu cavalo

E dás-me a mais formosa.

Parece que o rubor te vai subindo às faces...

Ó Filho, não me maces!

Ó Filho, tem piedade!

Deixa-te de sermões; no fim de contas, eu

Sou muito bom cristão... um poucochito ateu,

Como um cristão qualquer da fina sociedade.

Saiamos; rompe a aurora. A burguesia dorme,

Como a jibóia enorme

Que ressona, depois de devorar um toiro;

Ó jibóia feliz, ó burguesia, ó pança,

Dorme com segurança

Que a força está de guarda aos teus bezerros d'oiro.

E chama-se Progresso, ó Deus, esta farsada!

Isto é o cinismo alvar e em pêlo, à desfilada.

É a prostituição ignóbil da mulher,

São desejos brutais, é carne em plena orgia,

Enfim, a saturnal da podre burguesia,

Que reza como o Papa e ri como Voltaire.

Morrendo o velho Deus, o velho Deus tirano,

Este mundo burguês, católico-romano

Encontrou-se sem fé, sem dogma, sem moral;

A justiça era ele, o Padre-omnipotente;

Esse padre morreu; ficou-nos simplesmente

Um único evangelho – o código penal.

A consciência humana é um monte de destroços.

Foram-se as orações, foram-se os padre-nossos,

Tombou a fé, tombou o Céu, tombou o altar;

E o velho Deus-castigo e o velho Deus-receio

É simplesmente um freio

Para conter a raiva à besta popular.

A crassa burguesia, essa récua fradesca,

Opípara, animal, silénica, grotesca,

Namora a Deusa-carne e adora o Deus-milhão;

E as almas, fermentando assim nesta impureza,

Resvalam, sensuais, do leito para a mesa,

Da mesa para o chão.

Vendem-se a peso d'oiro as lânguidas donzelas,

Mais torpes que as cadelas,

Que ao menos dão de graça o libertino amor.

E o Dever, a Saúde, o Justo, o Verdadeiro,

Esses ricos metais fundem-se no braseiro

Dum sensualismo espesso, atroz, devorador.

A agiotagem, a bolsa, a cotação dos fundos,

É o princípio rei dominador dos mundos,

É um sangue vital, forte como o cognac.

Engordai, engordai, ó bravos homens sérios,

Que senis para dar esterco aos cemitérios

E música a Offenbach.

A vergonha morreu, a dignidade foi-se.

O mundo oficial é um vergonhoso alcoice,

E a plebe, tripudiando em hórridas orgias

Lança sobre o Direito um pustulento escarro,

E acende, cambaleando, a ponta do cigarro

Na fogueira que abrasa o Louvre e as Tulherias.

A família é um bordel. Os leitos sensuais

São verdadeiramente esgotos seminais,

Eróticas latrinas,

Onde entre o tumultuar dum debochado gozo

Se fabrica de noite o sangue escrofuloso

Das raças libertinas.

Calemo-nos. Eu oiço as ferraduras de Argus.

É a Ordem e a Lei; correm a trotes largos;

Vêm nesta direcção, esconde-te, Jesus!

Metamo-nos aqui num beco, anda ligeiro!

Que, se sabem quem és, meu velho petroleiro,

Mandam-te pendurar segunda vez na cruz.

E agora, Filho, adeus. Eu vou dormir um pouco,

E tu, meu pobre louco,

Descansa inda que seja um breve quarto d'hora;

Tingem-se de vermelho as bandas do Oriente,

É hoje a Aleluia, e necessariamente,

Tens de ressuscitar logo ao romper d'aurora.

Eu, mais feliz que tu, simples mortal que sou,

Eu, meu amigo, vou

Dormir até que chegue a hora do jantar.

Adeus, e ressuscita apenas surja o dia;

Se queres, vem dormir à minha hospedaria,

Que eu mando-te acordar.»

E Arouet partiu, soltando uma cruel risada,

E Jesus ficou só na noite desolada,

Naquela colossal Babilónia impudente,

Entre quatro milhões de almas – quatro milhões

De tigres, de reptis, de abutres e de leões

Agachados na sombra ameaçadoramente!...

Quem a visse do alto, essa Londres deserta

Com a fosforescência esmorecida, incerta

Da luz do gás a arder sob um céu tumular,

Julgaria estar vendo um grande monstro escuro,

Como que um Leviathan pútrido, num monturo

Imenso, a fermentar.

A noite era sinistra. Os ventos, a galope

Resfolegavam como as forjas dum ciclope

Com uivos de alienados e rugidos de feras.

E o mar bramia ao longe, atlético, espumante;

Qual marmita profunda, a ferver trovejante,

Sobre cem mil crateras.

E Cristo foi andando, errante, vagabundo,

Através dessa vasta imperatriz do mundo,

Opulenta Gomorra hidrópica de Vício,

Que Deus não enxofrou talvez, como costuma,

Porque, além de estar caro o enxofre, Deus em suma

lã não pode arruinar-se em fogos de artifício.

E ele ia vendo os mil palácios portentosos

Onde a besta feliz dormia, ébria de gozos.

Um inefável sono,

Enquanto que a miséria anónima, esfaimada

Às três da madrugada

Disputava o jantar no enxurro aos cães sem dono.

As altas catedrais, aonde a burguesia

Vai arrotar um pouco à missa do meio-dia,

Tinham como que o ar dum teatro fechado,

O aspecto mercantil dum armazém colosso

Em que Deus, ao balcão, vende os dogmas por grosso

E o Céu por atacado.

Os bancos, Pantagruéis do milhão, monumentos

De mármore e granito e bronze, sonolentos

Molochs, cuja pança obesa é um matadoiro,

Na virtuosa paz de monstros em descanso,

Digeriam de manso

Nos seus ventres de ferro um Himalaia d'oiro.

Nos mudos hospitais, onde enfim a desgraça

Tem a consolação de agonizar de graça,

Santos, monstros, heróis, – Tropmans, Valgeans, Phrynés –

Ansiavam no estertor do transe derradeiro,

– Lixo que um bonzo vai entregar a um coveiro

Para o calcar aos pés.

E era aquela imundície a humanidade!

Tinha valido bem a pena na verdade

Pregado numa cruz morrer como um ladrão,

Para ao cabo de dois mil anos vir achar

Pilatos sobre o trono e Caifás sobre o altar

De diadema na fronte e báculo na mão!

Arrasou-se de pranto o olhar do Nazareno,

Aquele olhar profundo, aquele olhar sereno

Que outrora deu alívio a tantos corações;

E a linha virginal do seu perfil suave

Turbou-se, apresentando o aspecto mudo e grave

Das nobres aflições.

E marmóreo, espectral, com a fronte sombria

Banhado no suor sangrento da agonia,

Foi deitar-se outra vez na leiva tumular,

Atleta que expirou transido de mil dores

E quer dormir, dormir entre as ervas e as flores

Onde escorre piedosa a branca luz do luar.

E quando a cristandade à volta do meio-dia

Correu ao templo a ver o entremez da Aleluia,

Em lugar dum Jesus banal de ciclorama

Subindo ao firmamento,

D'olhos azuis rum Céu d'anil, túnica ao vento,

Sobre nuvens de glória e de algodão em rama,

Viu-se na tela um Cristo em fúria, um visionário,

Truculento, febril, colérico, incendiário,

Como que um salteador fugido das galés,

Na boca uma blasfémia e no olhar um archote,

Expulsando da igreja os cristãos a chicote

E expulsando do altar o papa a pontapés!

 

  • Guerra Junqueiro - in: A Velhice do Padre Eterno