quinta-feira, 28 de maio de 2009

A Vida, O Universo e Tudo Mais

In memoriam


 

Douglas Adams


 

– Eu lamento dizer – falou por fim – que a Pergunta e a Resposta são mutuamente exclusivas. Por lógica, o conhecimento de uma impede o conhecimento da outra. É impossível que ambas possam ser conhecidas no mesmo Universo.

Fez outra pausa. O desapontamento surgiu no rosto de Arthur e foi se alojar em seu cantinho habitual.

– Exceto – disse Prak, fazendo força para focalizar um pensamento – que, se isso acontecesse, creio que a Pergunta e a Resposta iriam se cancelar mutuamente e levar o Universo com elas. Ele seria, então, substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. É possível que isso já tenha acontecido – acrescentou, com um sorriso enfraquecido –, mas há uma certa Incerteza a respeito disso.

Um pequeno risinho perpassou-o levemente. Arthur sentou-se em um banquinho.

– Ah, bem – disse, resignado –, eu só estava esperando que houvesse alguma razão.

– Você conhece – perguntou Prak – a história da Razão? Arthur disse que não e Prak respondeu que já sabia que não. Ele a contou.

Uma noite, ele disse, uma espaçonave apareceu no céu de um planeta que nunca antes havia visto uma delas. O planeta era Dalforsas e a nave era aquela.

Surgiu como uma nova e brilhante estrela se movendo silenciosamente através do céu.

As pessoas das primitivas tribos que estavam sentadas nas encostas das Montanhas Gélidas olharam para cima, segurando suas xícaras com bebidas fumegantes e apontaram, com dedos trêmulos, jurando que haviam visto um sinal de seus deuses significando que deveriam agora levantar-se e partir para massacrar os malignos Príncipes das Planícies.

Nas altas torres de seus palácios, os Príncipes das Planícies olharam para cima e viram a estrela brilhante, compreendendo que aquele era um sinal inequívoco de seus deuses para que eles partissem e atacassem as malditas tribos das Montanhas Gélidas.

Entre ambos, os Habitantes da Floresta olharam para o céu e viram o sinal da nova estrela. Olharam para ela com medo e apreensão porque, apesar de nunca terem visto nada assim, eles também sabiam exatamente que presságio aquilo trazia e curvaram suas cabeças em desespero.

Sabiam que, quando as chuvas vinham, era um sinal.

Quando as chuvas paravam, era um sinal.

Quando os ventos sopravam, era um sinal.

Quando os ventos se aquietavam, era um sinal.

Quando houvesse nascido na terra, à meia-noite em uma lua cheia, uma cabra com três cabeças, era um sinal.

Quando houvesse nascido na terra, em uma hora qualquer, um gato ou porco perfeitamente normal sem qualquer complicação, ou mesmo uma criança com um nariz empinado, muitas vezes essas coisas também eram vistas como um sinal.

Então não havia dúvida alguma de que uma nova estrela no céu era um sinal de enorme magnitude.

E cada novo sinal significava a mesma coisa – que os Príncipes das Planícies e as Tribos das Montanhas Gélidas estavam se preparando para arrancar o couro uns dos outros.

Por si só, isso não seria nada demais, exceto que os Príncipes das Planícies e as Tribos das Montanhas Gélidas sempre decidiam arrancar o couro uns dos outros na Floresta, e a pior parte dessas lutas sobrava sempre para os Habitantes da Floresta, ainda que, até onde eles conseguissem entender, não tivessem nada a ver com isso.

E algumas vezes, depois dos piores desses ultrajes, os Habitantes da Floresta enviavam um mensageiro para o líder dos Príncipes das Planícies ou para o líder das Tribos das Montanhas Gélidas, perguntando-lhes qual a Razão daquele comportamento insuportável.

E o líder, fosse quem fosse, levava o mensageiro para um canto e lhe explicava a Razão, lenta e cuidadosamente, tendo um grande cuidado ao explicar todos os detalhes envolvidos.

A coisa mais terrível era a seguinte: a razão era muito boa. Era clara, muito racional e muito dura. O mensageiro abaixava a cabeça, consternado, sentindo-se tolo por não ter percebido o quão duro e complexo era o mundo real, e quão enormes eram as dificuldades e paradoxos que precisavam ser defrontados para que fosse possível viver nele.

– Você entende agora? – dizia o líder.

O mensageiro concordava em silêncio.

– E você compreende que essas batalhas precisam ocorrer?

Outra vez concordava em silêncio.

– E por que elas têm que ocorrer na Floresta, no interesse de todos, inclusive dos Habitantes da Floresta?

– Eh...

– A longo prazo.

– Eh, sim.

E o mensageiro de fato compreendia a Razão, e retornava para seu povo na Floresta. Contudo, enquanto se aproximava deles, enquanto atravessava a Floresta, por entre as árvores, percebia que tudo de que podia se lembrar a respeito da Razão era o quão incrivelmente claro o argumento havia parecido.

Qual era exatamente o argumento, isso ele nunca conseguia se lembrar.

E isso era, claro, um grande consolo quando as Tribos e os Príncipes voltavam a guerrear, cortando e queimando tudo em seu caminho através da Floresta e matando todos os Habitantes da Floresta que encontrassem.