terça-feira, 16 de junho de 2009

O HOMEM EM FÚRIA

F. Nietzsche


 

Não ouviram falar daquele homem em fúria que, numa manhã clara

acendeu uma lâmpada, correu pela praça pública e gritou

incessantemente: "Procuro Deus? Procuro Deus?" - Como

justamente aí se encontravam muitos daqueles que não

acreditavam em Deus, provocou uma grande hilaridade. "Então

Ele extraviou-se?" Disse um. "Perdeu-se como uma criança?"

Disse outro. "Ou está Ele escondido? Tem medo de nós?

Embarcou? Emigrou?" - Assim gritavam e riam em grande

confusão. O homem em fúria saltou para o meio deles e

trespassou-os com um olhar. "Para onde foi Deus?" Gritou. "Eu

vou dizer-vos! Nós matámo-lo - Vós e eu! Nós todos somos os

seus assassinos! Mas como fizemos nós isto? Como pudemos nós

estragar o mar inteiro? Quem nos deu a esponja para apagar

todo o horizonte? Que fizemos quando desligámos esta terra do

seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos

nós? Para longe de todos os sóis? Não continuamos sempre a

cair? E para a frente, para o lado, para trás, para todos os

lados? Há ainda um em cima e um em baixo? Não erramos como

através de um nada infinito? Não nos sopra o espaço vazio? Não

faz mais frio? Não vem a noite e cada vez mais a noite? Não

deveriam acender as lanternas em pleno dia? Ainda não ouviram

nada do ruído dos coveiros que sepultam Deus? Não cheiraram

ainda nada da decomposição divina? Também os deuses entram em

decomposição! Deus morreu! Deus permanece morto! Nós matámo-

lo! Como nos consolaremos nós, os assassinos de todos os

assassinos? Aquilo que o mundo possuiu até agora de mais

poderoso sangrou sob as nossas facas - quem limpará de nós

este sangue? Com que água nos poderemos purificar? Que

expiações, que jogos sagrados teremos de inventar? Não é a

grandeza deste acto demasiado grande para nós? Não teremos

nós, de nos tornar nós mesmos deuses para parecermos agora

dignos d'Ele? Nunca houve um acto maior - e agora, quem vier a

nascer depois de nós, pertence, por causa deste acto, à

história mais alta do que toda a história que houve até

agora!" - Aqui o homem em fúria calou-se e olhou de novo para

os seus auditores: também eles se calaram e encararam-no com

estranheza. Por fim, ele lançou a lanterna ao chão, que saltou

em pedaços e se apagou. "Venho demasiado cedo" Disse então

"Não estou ainda na altura. Este acontecimento tremendo está

ainda a caminho - não atingiu ainda os ouvidos dos homens.

Relâmpago e trovão precisam de tempo. A luz dos astros precisa

de tempo, os actos precisam de tempo, mesmo depois de terem

sido realizados, para serem vistos e ouvidos. Este acto está

mais longe deles do que os mais longínquos astros - e eles

realizaram-no!" Conta-se ainda que o homem em fúria entrou

nesse dia em diferentes igrejas e aí entoou o seu requiem

aeternam Deo. Arrastado para fora e interrogado, retorquia

sempre e apenas isto: "O que são pois estas igrejas ainda

senão as sepulturas e os monumentos funerários de Deus?!"


 

In "A Gaia Ciência"