terça-feira, 18 de agosto de 2009

OS INTERMEDIÁRIOS

VI. OS INTERMEDIÁRIOS

A sociedade constitui-se do conjunto de serviços que os homens se prestam obrigatoria ou

voluntariamente uns aos outros, isto é, serviços públicos e serviços privados.

Os primeiros, impostos e regidos pela lei—que nem sempre é facilmente modificável, mesmo que tal

seja necessário—, podem existir por muito tempo e conservar ainda o nome de serviços públicos,

mesmo quando não são mais serviço nenhum ou quando não passam de vexame pública Os

segundos são do domínio da vontade, da responsabilidade individual. Cada um presta o serviço e

recebe o que quer, o que pode, após combinação prévia, Tem sempre para si a presunção de

utilidade real, exatamente mensurada pelo valor comparativo que possuem.

É por isso que os primeiros são quase sempre atingidos pelo imobilismo, enquanto os outros

seguem a lei do progresso.

Enquanto o desenvolvimento exagerado dos serviços públicos, pelo desperdício de forças que eles

carreiam, tende a criar, no seio da sociedade, um funesto parasitismo, é bastante singular que várias

teorias econômicas modernas, atribuindo esse caráter aos serviços livres e privados, busquem

transformar as profissões em funções.

Essas teorias opoem-se vigorosamente aos que elas cha-mam de intermediários. Por elas,

suprimir-se-iam de bom grado (44) o capitalista, o banqueiro, o especulador; o empresário, o comerciante

e o negociante, os quais são acusados de se interporem entre a produção e o consumo, a fim de cobrarem

mais do que o devido, sem levarem em consideração o justo valor das coisas. Ou então desejam transferir

para o Estado a tarefa que esses personagens fazem, já que tal tarefa não pode ser suprimida.

O sofisma dos socialistas quanto a esse assunto consiste em mostrar ao público o que ele paga aos

intermediários em troca de seus serviços, e a lhe esconder o que é necessário pagar ao Estado. É a

eterna luta entre o que se mostra aos olhos e o que não se apresenta senão ao espírito, entre o que se vê e

o que não se vê.

Foi em 1847 sobretudo, em tempos de escassez* (* A escassez na colheita de cereais e batata na Europa, em

1846, resultou no aumento dos preços em 1847 e teve, conseqüentemente, reflexos negativos na agricultura,

na indústria e no mundo das finanças), que as escolas socialistas tentaram e conseguiram popularizar sua desastrosa

teoria. Sabia-se bem que a mais absurda das propagandas tem sempre muitas oportunidades de

sucesso junto a homens que estão sofrendo: malesuada fames** (** "A fome é má conselheira" (Virgílio, Eneida,

VI, 276).

Assim, com a ajuda de grandes palavras como exploração do homem pelo homem, usurpação,

especulação sobre a fome, essas escolas começaram a denegrir o comércio e a velar os seus benefícios.

"Por que — diziam elas deixar aos negociantes o cuidado de importar víveres dos Estados Unidos

ou da Criméia? Por que o Estado, as províncias, as municipalidades não organizam um serviço de

abastecimento e armazéns de reserva? Eles venderiam pelo preço de custo, e o povo, o pobre povo, seria

libertado do tributo que paga ao comércio livre, ou seja, egoísta, individualista e anárquica"

O tributo pago pelo povo ao comércio é o que se vê. O (45) tributo que o povo pagaria ao Estado ou

a seus agentes, no sistema socialista, é o que não se vê.

Em que consiste esse pretenso tributo que o povo paga ao comércio? No seguinte: no fato de dois

homens, reciprocamente, prestarem serviço um ao outro, em toda liberdade, sob a pressão da

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concorrência e a preço discutido.

Quando o estômago que tem fome está em Paris e o trigo que pode satisfazer essa fome está em

Odessa, o sofrimento só acaba quando o trigo entra no estômago. Há três maneiras de operar para que

isto aconteça:

1ª. Os homens esfomeados podem ir buscar, eles mesmos, o trigo;

2ª. Eles podem pedir a outros que lhes façam esse serviço;

3ª. Eles podem cotizar-se e encarregar os funcionários públicos de realizarem a operação.

Dentre esses três meios, qual ê o mais vantajoso?

Em qualquer tempo, em qualquer país — e tanto mais quanto forem mais livres, mais esclarecidos, mais

experimentados —, os homens sempre escolheram voluntariamente o segunda Confesso que esta

constatação basta para pôr sob meus olhos a certeza de que ele é que é o certo. Meu espirito se recusa a

admitir que a humanidade em massa se engane quanto a esse ponto que a atinge tão de perto.

Vejamos, contudo:

Que trinta milhões de cidadãos partam para Odessa em busca do trigo de que precisam é

evidentemente inexeqüível. O primeiro meio não tem valor algum. Os consumidores não podem agir por si

próprios: têm de recorrer a intermediários, sejam estes funcionários ou negociantes.

Observemos, entretanto, que esse primeiro meio seria o mais natural. Afinal de contas, cabe àquele que

tem fome ir buscar seu trigo. É um trabalho que lhe diz respeito; é umserviço que ele presta a si mesma Se

outra pessoa, seja por que razão for, lhe prestar esse serviço e tiver esse trabalho, essa pessoa (46) tem

direito a uma compensação. O que estou dizendo aqui é para constatar que os serviços dos

intermediários trazem em si o princípio da remuneração.

Como quer que seja, já que é preciso recorrer ao que os socialistas chamam de parasita, qual deles,

o negociante ou o funcionário público, é o parasita menos exigente?

O comércio (eu o suponho livre, pois de outra forma não poderia raciocinar), o comércio, dizia eu, é

levado, por interesse, a estudar as estações, a constatar dia a dia o estado das colheitas, a receber

informações de todos os pontos do globo, a prever as necessidades, a precaver-se de antemão. Ele tem

navios preparados, correspondentes por toda parte, e seu interesse imediato é comprar ao melhor

preço possível, economizar em todos os detalhes da operação comercial, e atingir os maiores

resultados com os menores esforços. Não são só os negociantes franceses, mas os do mundo inteiro

que se ocu-pam do abastecimento da França para os dias de necessidade. E se lhes interessa

cumprir sua tarefe ao menor custo, a concorrência que fazem entre si os leva não menos a beneficiar

os consumidores com todas as economias realizadas, lendo chegado o trigo, o comércio tem

interesse em vendê-lo o mais ra-pidamente possível para não correr riscos e para levantar os fun-dos

necessários a fim de, se for preciso, recomeçar tudo de nova Orientado pela comparação de preços, o

comércio distribui os alimentos por todo o país, começando sempre pelos lu-gares mais caros, isto é,

por onde a necessidade se fez mais sentir Não é possível imaginar-se uma organização melhor estruturada

no interesse daqueles que tem fome E a beleza dessa organização, não percebida pelos

socialistas, resulta precisamente do feto de que ela é livre. Na verdade, o consumidor é obrigado a

reembolsar o comércio dos seus gastos com transporte, com estiva, com armazenagem, com

encomendas, etc, mas em que sistema não é preciso que quem come o trigo não reem-bolse os gastos

necessários para que de estivesse ao seu alcance? Há ainda que se pagar a remuneração do serviço

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prestado, mas (47) quanto à sua quota, esta é reduzida ao mínimo possível pela concorrência; quanto à

sua justiça, seria estranho se os artesãos de Paris não trabalhassem para os negociantes de Marselha,

quando os negociantes de Marselha trabalham para os artesãos de Paris.

De acordo com o plano socialista, se o Estado tomar o lugar do comerciante privado nessas

transações, o que acontecerá? Eu peço que me indiquem onde estará, para o povo, a economia.

Estará ela no preço de compra? Mas não nos esqueçamos dos delegados das quarenta mil

municipalidades chegando a Odessa em um determinado dia, exatamente no dia em que está

faltando trigo. Podemos imaginar o efeito disso sobre os preços! Estará essa economia nos gastos

com transporte marítimo? Mas seriam necessários menos navios, menos marinheiros, menos

estivadores, menos armazenamentos, ou será que não há necessidade de se pagarem essas

coisas? Estará então a economia no lucro dos negociantes? Mas será que os delegados e

funcionários irão por nada a Odessa? Será que eles viajarão e trabalharão baseados no princípio da

fraternidade? Não é preciso que eles vivam? Não é preciso que o tempo deles seja pago? E será que

isso não ultrapassa de mil vezes os 2 ou 3% que ganha o negociante, taxa à qual ele está pronto a

subscrever?

E depois, pense-se na dificuldade de levantar tantos impostos, de repartir tantos alimentos, Pensese

nas injustiças, nos abusos inerentes a tal empreendimento. Pense-se na responsabilidade que

pesaria sobre o governo.

Os socialistas que inventaram essas loucuras e que, nos dias de infelicidade, as insuflam nos

ouvidos das massas, dão-se liberalmente o título de homens de visão, e não é sem algum perigo

que o uso, esse tirano das línguas, ratifica o título e o julgamento que ele implica. De visâo! Isto

pressupõe que esses senhores têm a visão mais apurada que o povo; que seu único defeito é o de

estarem muito à frente do seu século; e que se ainda não chegou o momento de se suprimirem

alguns (48) serviços livres, considerados parasitas, a culpa é do povo, que está atrasado em relação

ao socialismo. No meu espirito e na minha consciência é o contrário que é verdade. E eu não sei a

que século bárbaro seria preciso retornar para achar, no tocante a esse assunto, um nível de

compreensão comparável ao dos socialistas.

Os simpatizantes modernos dessas teorias opõem sempre a associação à sociedade atual. Eles

não observam que a sociedade, num regime livre, é uma associação verdadeira, bem superior àquela

que sai de sua prodigiosa imaginação.

Elucidemos isso com um exemplo:

Para que um homem, ao se levantar, possa vestir uma roupa, é preciso que um pedaço de terra

tenha sido cercado, capinado, umedecido, trabalhado, semeado com uma certa espécie de vegetal. É

preciso que rebanhos se tenham alimenta-do e que tenham dado sua lã, que essa lã tenha sido fiada,

trançada, tingida, convertida em tecido; que esse tecido tenha sido cortado, cosido, moldado em uma

roupa. E esta série de operações implica uma quantidade de outras, pois elas supõem o emprego de

instrumentos para arar, estábulos, usinas, carvão, máquinas, viaturas, etc.

Se a sociedade não fosse uma associação muito real, aquele que quisesse uma roupa teria que

trabalhar isoladamente, isto é, teria que cumprir por si próprio as inumeráveis tarefas da série acima

indicada, desde a primeira enxada até o último ponto de agulha a ser dado.

Mas graças à sociabilidade, que é o caráter distintivo de nossa espécie, essas operações foram

distribuídas por entre uma multidão de trabalhadores, e elas se subdividem cada vez mais em prol do

bem comum, até o ponto em que, o consumo aumentando, uma simples operação especializada pode

gerar uma nova indústria. Vem em seguida a repartição do produto, que se opera segundo o

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contingente de valor que cada um (49) emprestou à obra total. Se isso não é associação, eu pergunto o

que é.

Observe-se que nenhum trabalhador retirou a menor partícula de matéria-prima do nada; ele se

juntou a outros trabalhadores e todos se prestaram serviços recíprocos, se interaju-daram com um

objetivo comum. E todos podem ser considerados, uns em relação aos outros, como intermediários.

Se, por exemplo, no curso da operação, o transporte se torna bastante importante para ocupar uma

pessoa, a fiação uma segunda, o tear uma terceira, por que a primeira seria vista como mais pa-rasita

que as duas outras? Não é preciso que o transporte seja feito? Aquele que o fez não dá parte de

seu.tempo e de seu trabalho para realizá-lo? Não o poupa a seus associados? Estes não fazem outra

coisa para ele? Não estão todos submetidos à remuneração igualmente, ou seja, à repartição do

produto; à lei do preço combinado? Não é livremente e pelo bem comum que essa repartição do

trabalho se dá e que as combinações são feitas? Por que teríamos necessidade que um socialista,

sob o pretexto de planejar, venha despoticamente destruir nossas livres combinações e parar com a

divisão do trabalho, substituir os esforços isolados por esforços associados e fazer a civilização andar

para trás? A associação, tal como a descrevo aqui, seria menos associação porque cada um entra e

sai dela livremente, escolhe seu lugar, julga e barganha preços por si mesmo, sob sua própria

responsabilidade, e traz para ela a força e a garantia de seu interesse pessoal? Para que ela

mereça esse nome, será necessário que um pretenso reformador venha nos impor sua fórmula e

sua vontade, e concentrar, por assim dizer, a humanidade nele próprio?

Quanto mais se examinam essas escolas avançadas, mais se fica convencido de que só uma

coisa importa no fim de tudo: a ignorância se proclamando infalível e reclamando o despotismo em

nome dessa infalibilidade.

Que o leitor nos desculpe essa digressão. Ela talvez não seja inútil no momento em que, tendo

escapado dos livros as

perorações contra os intermediários invadem o jornalismo e a Assembléia, ameaçando seriamente a

liberdade do trabalho e das transações comerciais. (51)


 

de (50) Saint-Simon* (* Claude Henri de Rouvrox, conde de Saint-Simon (1760-1825),

fundador histórico do socialismo francês), dos falansterianos* (* falansterianos, ou construtores comuns, tal como

propôs Maríe Charles Fourier; em 1832, no seu jornal le Phalanstère, com suas falanges ou comunidades de

produção estruturadas em bases cooperativas e nas quais a repartição dos bens produzidos coletivamente se fazia

segundo o capital empregado, a capacidade e o trabalho de cada membro da comunidade) e dos icarianos* (*

Viagem a Icária (Voyage en Icarie), romance fantástico, escrito por Etienne Cabet, propondo a fundação de colônias

como forma de organização social, nas quais o militarismo comunitário substituiria o desejo de lucro),

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