terça-feira, 9 de março de 2010

Acima dos fatos pequenos

Costumo pensar que os homens não são tanto os guardadores de rebanhos quanto os rebanhos são os guardadores dos homens, pois aqueles são bem mais livres. Homens e bois trocam serviços; mas se considerarmos apenas o trabalho necessário, os bois levam vantagem, o campo deles sendo bem maior. No trabalho de intercâmbio o homem faz um pouco do que lhe cabe nas seis semanas de coleta do feno, faina que não é brincadeira. Certamente nenhuma nação que vivesse com simplicidade em todos os aspectos, isto é, nenhuma nação de filósofos cometeria o desatino de usar o trabalho dos animais.


 

É verdade que nunca houve e é provável que nunca venha a existir uma nação de filósofos, nem tampouco estou convicto de que tal existência seja desejável. Entretanto, eu jamais amansaria ou alimentaria um cavalo ou um touro por conta de qualquer serviço que viesse a me prestar, simplesmente por medo de me tornar cavaleiro ou vaqueiro; e se a sociedade aparentemente ganha procedendo assim, estaremos certos de que o que representa lucro para uma pessoa não representa prejuízo para outra, e de que o garoto da cavalariça não mereça sentir-se tão satisfeito quanto o patrão? Concordo que certas obras públicas não teriam sido executadas sem esse tipo de ajuda, e que o homem divida tal glória com o boi e o cavalo; deduz-se daí que sozinho o homem não teria realizado obras ainda mais dignas de si?


 

Quando os homens começam a fazer algo, não apenas supérfluo ou artístico mas faustoso e inútil, com a assistência dos animais, torna-se inevitável que alguns poucos façam o trabalho permutável com bois, ou, em outras palavras, que se convertam nos escravos dos mais fortes. Desse modo o homem não trabalha apenas para o animal que há dentro dele, mas por um símbolo, para o que há fora dele. Embora disponhamos de muitas casas imponentes, quer de tijolos, quer de pedras, a prosperidade do fazendeiro ainda se calcula pela proporção em que o estábulo sobrepuja a casa. Esta cidade é conhecida em todos os arredores por possuir as maiores estrebarias para bois, vacas e cavalos, construções que não ficam a dever nem aos edifícios públicos; por outro lado contam-se nos dedos os locais aqui onde se pode rezar ou discursar com total liberdade.


 

Em vez de se autocelebrarem por meio da arquitetura, as nações não deveriam fazê-lo pelo poder de seu pensamento abstrato? O Bhagvat-Gita é muito mais admirável que todas as ruínas do Oriente. Torres e templos são luxo de príncipes. A mente simples e livre não moureja sob as ordens de nenhum príncipe. O espírito não é privilégio de nenhum imperador, nem lhe são exclusivos, a não ser em insignificante medida, a prata, o ouro e o mármore. Digam-me com que finalidade se malha tanta pedra? Quando estive na Arcádia, não vi pedras sendo lavradas. As nações são possuídas pela louca ambição de perpetuarem sua memória com a soma de esculturas que deixam. Que tal se esforços semelhantes fossem despendidos no sentido de aperfeiçoar e polir sua conduta? Uma obra de bom senso seria mais memorável que um monumento da altura da lua. Prefiro contemplar as pedras em seu lugar de origem. A grandeza de Tebas foi uma grandeza vulgar.


 

O curto muro de pedras que delimita o terreno do homem honesto tem mais cabimento que as cem portas de Tebas estendendo-se além do verdadeiro fim da vida. Enquanto religiões e civilizações bárbaras e pagãs constroem templos esplêndidos, o que podeis chamar de cristandade, não o faz. A maioria da pedra que a nação talha se destina ao próprio túmulo. A nação se enterra viva. Com relação às pirâmides, nada há nelas que se admire tanto quanto o fato de milhares de homens terem-se degradado a ponto de empenharem suas vidas na construção do túmulo de algum ambicioso pateta, que de modo mais sábio e varonil poderia ter sido afogado no Nilo antes de seu cadáver ser entregue aos cães.


 

Talvez eu pudesse até inventar uma desculpa para os operários e o faraó, mas não quero perder tempo com isso. Quanto à religião e ao amor à arte dos construtores, o mesmo ocorre em todo o mundo, trate-se de um templo egípcio ou de um banco norte-americano. Consta mais do que vale. A mola mestra é a vaidade, secundada pelo prazer de saborear o alho e o pão com manteiga. O senhor Balcom, jovem e promissor arquiteto, desenha com régua e lápis duro nas costas do seu tratado de Vitruvio, e a tarefa passa à firma de cantaria Dobson & Sons. Quando trinta séculos começam a contemplar a obra a partir do alto, a humanidade começa a contemplá-la a partir de baixo.


 

Quanto a vossos monumentos e altas torres, havia certa vez nesta cidade um camarada maluco que tomou a peito cavar um túnel até a China, e levou o intento tão avante que, conforme disse, chegou a ouvir as panelas e as chaleiras da China chocalhando. Não sairei do meu caminho para admirar o buraco que fez. Muita gente se preocupa com os monumentos do Ocidente e do Oriente, quer saber quem os construiu. De minha parte, gostaria de saber quem nessa época deixou de construí-los, quem estava acima de tais ninharias.


 

:: Excerto retirado, do livro Walden, do eterno rebelde Henry David Thoreau.