sexta-feira, 14 de maio de 2010

Os Carros do Inferno

Pequenos excertos retirados do livro de Sven Hassel, intitulado Os Carros do Inferno.


 

Um soldado na guerra é como um grão de areia na

praia.

As vagas submergem-no, aspiram-no, repelem-no, e aspiram-no

de novo.

E ele desaparece sem que ninguém dê por isso e sem

que ninguém se preocupe com o seu destino.


 


 


 


 

Na realidade, Porta era um ser à parte. Ninguém suspeitaria

de que existisse nele um fundo de rectidão, e, contudo,

aquele filho da rua não tinha uma natureza perversa

Ali sentado, sujo e repugnante, de monóculo e chapéu alto, a

beber e a arrotar, tínhamos de admitir que não parecia uma

personagem lá muito recomendável. Porta era, sem dúvida

o protótipo do soldado veterano, do mercenário calejado

que, sem pestanejar, era capaz de espetar a sua faca no

peito do adversário, sem deixar de rir, limpando em seguida

a lâmina à manga. Era também um homem que não hesitava

em disparar uma bala dundum na nuca de um oficial

que odiasse, como sucedera com o capitão Meyer. Porta

assassinava a sangue-frio, por causa de um bocado de pão,

e seria muito capaz de fazer ir pelos ares um abrigo cheio

de gente se lhe dessem ordem para isso.

Mas quem é que o transformara nesse animal feroz?

A mãe? Os camaradas? A escola? Não: o Estado totalitário,

a caserna e o fanatismo dos militares. Porta aprendera

o catecismo nazi, que é igual em todos os governos

totalitários e se resume nestas poucas frases: faz o que

quiseres, mas nunca te deixes apanhar; sê duro e cínico, de

contrário serás -esmagado; se te mostrares humano, estás

perdido. Fora esta a formação de Porta.

Experimentem penetrar dentro dos limites interditos da

caserna e vejam com os vossos olhos; ficareis pálidos de

vergonha. Todos esses militares, tesos como paus de vassoura,

que passam a vida a fazer peito, de rosto sem lábios,

de olhos de aço inexpressivos, imaginai-os observados por

um médico psiquiatra. Na vossa opinião, qual seria o diagnóstico?

Se conheceis, como eu, essa inquietante raça, não

tereis um momento de hesitação.


 

Tinham conseguido fazer calar em nós tudo o que havia

de humano.

Conhecíamos apenas a terrível linguagem das armas.

Os nossos conhecimentos de anatomia eram iguais aos

de um médico e podíamos designar com segurança o sítio

onde o tiro ou a facada seriam mais dolorosos. O Diabo

devia estar, sem dúvida, a rir-se atrás das nossas costas.


 

Os jovens de hoje não conhecem a guerra e o que têm

tido ocasião de ler até agora não lhes dá dela uma imagem

fiel. Procurei dar essa imagem nos meus livros, e se, desta

maneira, conseguir contribuir para que a guerra não volte,

posso dar por cumprida a minha missão.