Pequenos excertos retirados do livro de Sven Hassel, intitulado Os Carros do Inferno.
Um soldado na guerra é como um grão de areia na
praia.
As vagas submergem-no, aspiram-no, repelem-no, e aspiram-no
de novo.
E ele desaparece sem que ninguém dê por isso e sem
que ninguém se preocupe com o seu destino.
Na realidade, Porta era um ser à parte. Ninguém suspeitaria
de que existisse nele um fundo de rectidão, e, contudo,
aquele filho da rua não tinha uma natureza perversa
Ali sentado, sujo e repugnante, de monóculo e chapéu alto, a
beber e a arrotar, tínhamos de admitir que não parecia uma
personagem lá muito recomendável. Porta era, sem dúvida
o protótipo do soldado veterano, do mercenário calejado
que, sem pestanejar, era capaz de espetar a sua faca no
peito do adversário, sem deixar de rir, limpando em seguida
a lâmina à manga. Era também um homem que não hesitava
em disparar uma bala dundum na nuca de um oficial
que odiasse, como sucedera com o capitão Meyer. Porta
assassinava a sangue-frio, por causa de um bocado de pão,
e seria muito capaz de fazer ir pelos ares um abrigo cheio
de gente se lhe dessem ordem para isso.
Mas quem é que o transformara nesse animal feroz?
A mãe? Os camaradas? A escola? Não: o Estado totalitário,
a caserna e o fanatismo dos militares. Porta aprendera
o catecismo nazi, que é igual em todos os governos
totalitários e se resume nestas poucas frases: faz o que
quiseres, mas nunca te deixes apanhar; sê duro e cínico, de
contrário serás -esmagado; se te mostrares humano, estás
perdido. Fora esta a formação de Porta.
Experimentem penetrar dentro dos limites interditos da
caserna e vejam com os vossos olhos; ficareis pálidos de
vergonha. Todos esses militares, tesos como paus de vassoura,
que passam a vida a fazer peito, de rosto sem lábios,
de olhos de aço inexpressivos, imaginai-os observados por
um médico psiquiatra. Na vossa opinião, qual seria o diagnóstico?
Se conheceis, como eu, essa inquietante raça, não
tereis um momento de hesitação.
Tinham conseguido fazer calar em nós tudo o que havia
de humano.
Conhecíamos apenas a terrível linguagem das armas.
Os nossos conhecimentos de anatomia eram iguais aos
de um médico e podíamos designar com segurança o sítio
onde o tiro ou a facada seriam mais dolorosos. O Diabo
devia estar, sem dúvida, a rir-se atrás das nossas costas.
Os jovens de hoje não conhecem a guerra e o que têm
tido ocasião de ler até agora não lhes dá dela uma imagem
fiel. Procurei dar essa imagem nos meus livros, e se, desta
maneira, conseguir contribuir para que a guerra não volte,
posso dar por cumprida a minha missão.