Nós buscamos o futuro. Olhamos sua névoa e esperamos ver algum marco que leve o destino a fazer sentido. Durante toda a vida tentei entender o passado porque ele era muito glorioso, e vemos restos dessa glória por toda a Britânia. Vemos os grandes palácios de mármore que os romanos fizeram, viajamos por estradas que eles abriram e atravessamos pontes que eles construíram, e tudo isso está sumindo. O mármore racha com o gelo do inverno e as Paredes desmoronam. Alfredo e as pessoas como ele acreditavam estar trazendo a civilização a um mundo maligno e decadente, mas tudo o que ELE fez foi estabelecer regras. Regras demais, porém as leis eram apenas uma expressão de esperança, porque a realidade eram os burhs, as muralhas, as lanças nas fortificações, o brilho de elmos ao alvorecer, o medo de cavaleiros com cota de malha, as pancadas dos cascos e os gritos das vítimas. Alfredo sentia orgulho de suas escolas, seus mosteiros e suas igrejas ricas de prata, mas essas coisas eram protegidas por lâminas. E o que era Wessex, comparado a Roma?
É difícil ordenar os pensamentos, mas sinto, sempre senti, que deslizamos da luz para a escuridão, da glória ao caos, e talvez isso seja bom. Meus deuses nos dizem que o mundo terminará no caos, assim talvez estejamos vivendo os últimos dias e talvez até eu viva o suficiente para ver as montanhas racharem, o mar ferver e os céus queimarem enquanto os grandes deuses lutam. E diante dessa grande perdição, Alfredo construía escolas. Seus padres corriam de um lado para o outro como camundongos na palha podre, impondo suas regras como se a mera obediência pudesse impedir o fim. Não matarás, pregavam eles, depois gritavam para que nós, guerreiros, trucidássemos os pagãos. Não roubarás, pregavam, e forjavam documentos para roubar terras dos homens. Não cometerás adultério, pregavam, e fornicavam com as mulheres de outros homens como lebres enlouquecidas na primavera.
Não faz sentido. O passado é uma esteira de navio riscada num mar cinzento, mas o futuro não tem marco.
- Excerto do livro Terra em Chamas de Bernard Cornwell.