QUARTA RONDA
97
O Camaquã ficou cheio,
Deitou água campo fora,
Ali nos veio a caipora,
Que o destino a ninguém poupa:
nem tempo pra mudar de roupa,
Nem pra desatar a espora.
98
Quando o tempo ansim desaba
E a chuva bate de açoite,
Não há peão que amoite
Ou se deite na macega;
Porque a tropa não sossega,
Quer de dia, quer de noite.
99
Arisca e redemoinhando
A tropa estava arenguera,
Se não fosse tão campera
A peonada e de truz,
Tinha o dono feito cruz
Na marca e havido porquera.
100
Dia e meio ali ficou-se
Parado à beira da enchente.
Mas mui pronto, felizmente,
Foi-se apresentando a baixa,
Entrou logo o rio na caixa,
Ansim muito de repente.
101
Era sinal de mais chuva,
Não havia que hesitar;
Tinha a tropa que passar
A nado e já, sem demora,
Pois, se não passasse agora,
O remédio era voltar.
102
Pra dar volta do caminho
Muita corage é preciso!
Não é tanto o prejuízo,
E a vergonha que se passa.
Com mais gosto a gente abraça
Uma cascavel de guizo.
103
O Lautério era o ponteiro
E este tinha caracu;
Num proviso se pôs nu,
Era como capivara,
E guasqueando o malacara
Com seu rabo de tatu,
104
Pinchou-se n'água e gritou:
"Façam cair bem a ponta,
Que o resto é por minha conta;
Não tenho a pança furada."
E foi caindo a novilhada
Aos magotes, meio tonta.
105
O gado foi descambando,
Que a correnteza era forte;
Mas o dia era de sorte
E o Lautério, buenacho,
Ganhou porto logo abaixo
Com todo o primeiro corte.
106
Vendo a ponta do outro lado,
O resto frechou direito.
Não é lá quarquer sujeito,
Não é quarquer mata-cobra
Que executa esta manobra
E passa um gado com jeito.
107
Rondou-se perto do rio
E em riba dum cocuruto,
Acendeu-se um fogo bruto
Pra roupa a gente enxugar;
Estava tudo a pingar,
Não se tinha nada enxuto.
108
A noite ficou bonita,
A lua vinha nascendo;
E o Lautério foi dizendo:
Amigos, este luar
Dá saudades de cantar...
E eu canto dês que m'intendo.
109
Inda tenho que dizer,
O conto não se acabou;
Que vá dormir quem cansou;
Eu cantando é que descanso..."
E o mulato ansim de manso
A história recomeçou:
110
Aos poucos foi o Chimango
Se prepassando a carancho,
Ia fazendo o seu gancho
E arranjando o seu farnel
À sombra do coronel,
Caladinho e sem desmancho.
111
Era o mimoso da Estância,
Todos reparavam nisso;
Parecia até feitiço
Aquela predileção!
Tão grande era a proteção
Que recebia o magriço.
112
Devagar se foi metendo,
Todo cheio de mesura,
Como piolho em costura
Em tudo o que era da casa;
E ansim foi criando asa
Com marcha certa e segura.
113
C'o tempo o coronel Prates
Se foi sentindo pesado;
Tinha muito trabalhado
Naquela vida campestre,
Onde ele, com mão de mestre,
Tinha tudo preparado.
114
Um dia chamou o Chimango
E disse: "Escuta, rapaz,
Vais ser o meu capataz;
Mas, tem uma condição:
As rédeas na minha mão,
Governando por detrás.
115
Eu não quero ir mais ao campo,
Já estou ficando grisalho;
Porém, deixando o trabalho,
Sou sempre o dono da casa.
Tu vais recolhendo a vaza,
Eu manejando o baralho.
116
Sei que tu és maturrango,
Porém, dou-te a preferência.
Nisto está minha ciência,
Escolhendo-te entre os outros;
Eles sabem domar potros,
Mas, tu tens a obediência.
117
Toda a minha gente é boa
Pra parar bem um rodeio,
Boa e fiel, já lo creio,
Mas, eu procuro um mansinho,
Que não levante o focinho
Quando eu for meter-le o freio.
118
Quero que me sirvas bem
E não me estragues o povo.
És ainda muito novo,
Pode que te desconheçam;
Pra que todos te obedeçam,
Eu vou te pôr um retovo.
119
O retovo são conselhos
E normas de proceder,
Que tu precisas saber
E conhecer bem a fundo,
Todos vivem neste mundo,
Mas, poucos sabem viver.
120
Eu podia tomar outro
Pra encarregar das prebendas;
Mas, pra evitar contendas
E que briguem por engodos,
Pego o mais fraco de todos;
E assim quero que m'intendas."
121
Então chamou o Aureliano,
Pardo velho mui antigo,
Que conservava consigo
Assim como secretário;
Espécie de relicário
De família, muito amigo.
122
"Tu que és um conhecedor
De tudo como se faz,
Ensina-me a este rapaz
As manhas de governar,
Que ele vai desempenhar
O cargo de capataz.
123
Leva-o lá para o teu rancho,
Vai-lhe ensinando os segredos;
Que ele só conta nos dedos
E não tem nenhuma prática;
Ensina-lhe a tua gramática
Pra desmanchar os enredos."
124
As ordes foram cumpridas
Desde logo a todo risco.
O Aureliano era um corisco,
Finório, matriculado,
Mulato velho marcado,
Devoto de S. Francisco.
125
À sombra de uma figueira
Sentados num cabeçalho,
O Aureliano, sem atalho,
Disse: "Agora, meu menino,
Eu vou te dar o ensino
Do que aprendi no trabalho.
126
Pra pegar um pescoceiro
Que há sempre algum na tropilha,
Desses que pouco se encilha,
Não precisas ter cansaço;
Que os bobos puxem o laço,
Fica-te tu na presilha.
127
Quando um erro cometeres
(O que bem pode se dar)
Não deves ignorar
Como se sai da rascada:
A culpa é da peonada;
O patrão não pode errar.
128
Quando vires um peão,
Mesmo o melhor no serviço,
Ir pretendendo por isso
Adquirir importância...
Bota pra fora da Estância,
Mas, sem fazer rebuliço.
129
A regra é – cabresto curto –
Pra ter tudo nos seus eixos;
Sofrenaço pelos queixos,
De vez em quando convém...
Mesmo aos que procedem bem,
Queixa-te dos seus desleixos.
130
Cada qual tem o seu fraco
E também sua pereva,
É por aí que se os leva,
Mas, sem dar a perceber;
Está tudo em se meter
Com jeito o porco na ceva.
131
Predominar sobre todos,
E mandar com muito arrojo;
Da adulação não ter nojo,
E tirar dela partido.
Fica disto convencido:
Quem ordenha bebe o apojo.
132
Não percas isto de vista:
C'os cotubas ter paciência,
C'os fracos muita insolência,
Com milicos muito jeito;
Não ter amigos – do peito;
Nisto está toda a ciência.
133
Dizem que não crer é bom,
Pra quem ser forte deseja;
Mas tu deves ir à igreja
Bater nos peitos também;
E te fará muito bem
Pedir que ela te proteja.
134
Tu vais receber a Estância
E dirás a toda gente
Que tu és lugar tenente,
Que vais mandar como dono;
Mas não penses que este abono
Seja moeda corrente.
135
Conhece bem teu papel,
Não largues da mão o prumo;
Por ti só não dês o rumo,
Nem resolvas por ti só;
Tu carregas o bocó
E o dono é quem pica o fumo.
136
E para te conservares,
Tu que na lida inda és grego
E desfrutares o emprego
Sem barulho e sem tropel...
Cuidado com o coronel,
Não pises fora do rego."
137
Deste modo é que o Chimango,
Que não valia um cigarro,
Foi tirando o pé do barro
C'uma potra nunca vista
E alevantando a crista,
Puxando grosso o pigarro.
138
Por aquele vizindário
Correu logo a novidade.
Mas, será mesmo verdade?
O coronel ficou louco!
Como se meteu no coco
Tamanha barbaridade?
139
Mas, o certo é que o Chimango
Foi logo colhendo a linha;
Não entrou mais na cozinha
E se ausentou do galpão;
Deu até pra guapetão,
Ele, que era uma galinha.
140
Toda a gente de S. Pedro
(Assim se chamava a Estância)
Com alguma relutância
Foi aceitando o intruso,
Que o coronel pra seu uso
Encheu de tanta importância.
141
O povo é como o boi manso,
Quando novilho atropela,
Bufa, pula, se arrepela,
Escrapeteia e se zanga;
Depois... vem lamber a canga
E tornar-se amigo dela.
142
Home é bicho que se doma
Como qualquer outro bicho;
Tem, às vezes, seu capricho,
Mas, logo larga de mão,
Vendo no cocho a ração,
Faz que não sente o rabicho.
143
Também co' aquela mudança,
Ninguém notou diferença.
Ficaram todos na crença
Que o dono é quem dirigia;
O que o Chimango fazia
Dependia de licença.
144
Tinhas as penas de pavão,
Mas não passava de gralha,
Era figura de palha
Para espantar passarinho;
Armação de pau de pinho
Que nem serve pra cangalha.
145
Ou por sorte, ou por feitiço,
Ou capricho do destino,
O certo é que o teatino
Tornou-se enfim um graúdo,
Chegando a abocanhar tudo,
Tornando-se um pente fino.
146
Foi ansim como les conta,
Neste fogão, junto ao rio,
Quem muita coisa já viu
Quer na guerra, quer na paz;
Chimango foi capataz
Por muitos anos a fio.