terça-feira, 7 de junho de 2011

Chimango

QUARTA RONDA

97


 

O Camaquã ficou cheio,

Deitou água campo fora,

Ali nos veio a caipora,

Que o destino a ninguém poupa:

nem tempo pra mudar de roupa,

Nem pra desatar a espora.


 

98


 

Quando o tempo ansim desaba

E a chuva bate de açoite,

Não há peão que amoite

Ou se deite na macega;

Porque a tropa não sossega,

Quer de dia, quer de noite.


 

99


 

Arisca e redemoinhando

A tropa estava arenguera,

Se não fosse tão campera

A peonada e de truz,

Tinha o dono feito cruz

Na marca e havido porquera.


 

100


 

Dia e meio ali ficou-se

Parado à beira da enchente.

Mas mui pronto, felizmente,

Foi-se apresentando a baixa,

Entrou logo o rio na caixa,

Ansim muito de repente.


 

101


 

Era sinal de mais chuva,

Não havia que hesitar;

Tinha a tropa que passar

A nado e já, sem demora,

Pois, se não passasse agora,

O remédio era voltar.


 

102


 

Pra dar volta do caminho

Muita corage é preciso!

Não é tanto o prejuízo,

E a vergonha que se passa.

Com mais gosto a gente abraça

Uma cascavel de guizo.


 

103


 

O Lautério era o ponteiro

E este tinha caracu;

Num proviso se pôs nu,

Era como capivara,

E guasqueando o malacara

Com seu rabo de tatu,


 

104


 

Pinchou-se n'água e gritou:

"Façam cair bem a ponta,

Que o resto é por minha conta;

Não tenho a pança furada."

E foi caindo a novilhada

Aos magotes, meio tonta.


 

105


 

O gado foi descambando,

Que a correnteza era forte;

Mas o dia era de sorte

E o Lautério, buenacho,

Ganhou porto logo abaixo

Com todo o primeiro corte.


 

106


 

Vendo a ponta do outro lado,

O resto frechou direito.

Não é lá quarquer sujeito,

Não é quarquer mata-cobra

Que executa esta manobra

E passa um gado com jeito.


 

107


 

Rondou-se perto do rio

E em riba dum cocuruto,

Acendeu-se um fogo bruto

Pra roupa a gente enxugar;

Estava tudo a pingar,

Não se tinha nada enxuto.


 

108


 

A noite ficou bonita,

A lua vinha nascendo;

E o Lautério foi dizendo:

Amigos, este luar

Dá saudades de cantar...

E eu canto dês que m'intendo.


 

109


 

Inda tenho que dizer,

O conto não se acabou;

Que vá dormir quem cansou;

Eu cantando é que descanso..."

E o mulato ansim de manso

A história recomeçou:


 

110


 

Aos poucos foi o Chimango

Se prepassando a carancho,

Ia fazendo o seu gancho

E arranjando o seu farnel

À sombra do coronel,

Caladinho e sem desmancho.


 

111


 

Era o mimoso da Estância,

Todos reparavam nisso;

Parecia até feitiço

Aquela predileção!

Tão grande era a proteção

Que recebia o magriço.


 

112


 

Devagar se foi metendo,

Todo cheio de mesura,

Como piolho em costura

Em tudo o que era da casa;

E ansim foi criando asa

Com marcha certa e segura.


 

113


 

C'o tempo o coronel Prates

Se foi sentindo pesado;

Tinha muito trabalhado

Naquela vida campestre,

Onde ele, com mão de mestre,

Tinha tudo preparado.


 

114


 

Um dia chamou o Chimango

E disse: "Escuta, rapaz,

Vais ser o meu capataz;

Mas, tem uma condição:

As rédeas na minha mão,

Governando por detrás.


 

115


 

Eu não quero ir mais ao campo,

Já estou ficando grisalho;

Porém, deixando o trabalho,

Sou sempre o dono da casa.

Tu vais recolhendo a vaza,

Eu manejando o baralho.


 

116


 

Sei que tu és maturrango,

Porém, dou-te a preferência.

Nisto está minha ciência,

Escolhendo-te entre os outros;

Eles sabem domar potros,

Mas, tu tens a obediência.


 

117


 

Toda a minha gente é boa

Pra parar bem um rodeio,

Boa e fiel, já lo creio,

Mas, eu procuro um mansinho,

Que não levante o focinho

Quando eu for meter-le o freio.


 

118


 

Quero que me sirvas bem

E não me estragues o povo.

És ainda muito novo,

Pode que te desconheçam;

Pra que todos te obedeçam,

Eu vou te pôr um retovo.


 

119


 

O retovo são conselhos

E normas de proceder,

Que tu precisas saber

E conhecer bem a fundo,

Todos vivem neste mundo,

Mas, poucos sabem viver.


 

120


 

Eu podia tomar outro

Pra encarregar das prebendas;

Mas, pra evitar contendas

E que briguem por engodos,

Pego o mais fraco de todos;

E assim quero que m'intendas."


 

121


 

Então chamou o Aureliano,

Pardo velho mui antigo,

Que conservava consigo

Assim como secretário;

Espécie de relicário

De família, muito amigo.


 

122


 

"Tu que és um conhecedor

De tudo como se faz,

Ensina-me a este rapaz

As manhas de governar,

Que ele vai desempenhar

O cargo de capataz.


 

123


 

Leva-o lá para o teu rancho,

Vai-lhe ensinando os segredos;

Que ele só conta nos dedos

E não tem nenhuma prática;

Ensina-lhe a tua gramática

Pra desmanchar os enredos."


 

124


 

As ordes foram cumpridas

Desde logo a todo risco.

O Aureliano era um corisco,

Finório, matriculado,

Mulato velho marcado,

Devoto de S. Francisco.


 

125


 

À sombra de uma figueira

Sentados num cabeçalho,

O Aureliano, sem atalho,

Disse: "Agora, meu menino,

Eu vou te dar o ensino

Do que aprendi no trabalho.


 

126


 

Pra pegar um pescoceiro

Que há sempre algum na tropilha,

Desses que pouco se encilha,

Não precisas ter cansaço;

Que os bobos puxem o laço,

Fica-te tu na presilha.


 

127


 

Quando um erro cometeres

(O que bem pode se dar)

Não deves ignorar

Como se sai da rascada:

A culpa é da peonada;

O patrão não pode errar.


 

128


 

Quando vires um peão,

Mesmo o melhor no serviço,

Ir pretendendo por isso

Adquirir importância...

Bota pra fora da Estância,

Mas, sem fazer rebuliço.


 

129


 

A regra é – cabresto curto –

Pra ter tudo nos seus eixos;

Sofrenaço pelos queixos,

De vez em quando convém...

Mesmo aos que procedem bem,

Queixa-te dos seus desleixos.


 

130


 

Cada qual tem o seu fraco

E também sua pereva,

É por aí que se os leva,

Mas, sem dar a perceber;

Está tudo em se meter

Com jeito o porco na ceva.


 

131


 

Predominar sobre todos,

E mandar com muito arrojo;

Da adulação não ter nojo,

E tirar dela partido.

Fica disto convencido:

Quem ordenha bebe o apojo.


 

132


 

Não percas isto de vista:

C'os cotubas ter paciência,

C'os fracos muita insolência,

Com milicos muito jeito;

Não ter amigos – do peito;

Nisto está toda a ciência.


 

133


 

Dizem que não crer é bom,

Pra quem ser forte deseja;

Mas tu deves ir à igreja

Bater nos peitos também;

E te fará muito bem

Pedir que ela te proteja.


 

134


 

Tu vais receber a Estância

E dirás a toda gente

Que tu és lugar tenente,

Que vais mandar como dono;

Mas não penses que este abono

Seja moeda corrente.


 

135


 

Conhece bem teu papel,

Não largues da mão o prumo;

Por ti só não dês o rumo,

Nem resolvas por ti só;

Tu carregas o bocó

E o dono é quem pica o fumo.


 

136


 

E para te conservares,

Tu que na lida inda és grego

E desfrutares o emprego

Sem barulho e sem tropel...

Cuidado com o coronel,

Não pises fora do rego."


 

137


 

Deste modo é que o Chimango,

Que não valia um cigarro,

Foi tirando o pé do barro

C'uma potra nunca vista

E alevantando a crista,

Puxando grosso o pigarro.


 

138


 

Por aquele vizindário

Correu logo a novidade.

Mas, será mesmo verdade?

O coronel ficou louco!

Como se meteu no coco

Tamanha barbaridade?


 

139


 

Mas, o certo é que o Chimango

Foi logo colhendo a linha;

Não entrou mais na cozinha

E se ausentou do galpão;

Deu até pra guapetão,

Ele, que era uma galinha.


 

140


 

Toda a gente de S. Pedro

(Assim se chamava a Estância)

Com alguma relutância

Foi aceitando o intruso,

Que o coronel pra seu uso

Encheu de tanta importância.


 

141


 

O povo é como o boi manso,

Quando novilho atropela,

Bufa, pula, se arrepela,

Escrapeteia e se zanga;

Depois... vem lamber a canga

E tornar-se amigo dela.


 

142


 

Home é bicho que se doma

Como qualquer outro bicho;

Tem, às vezes, seu capricho,

Mas, logo larga de mão,

Vendo no cocho a ração,

Faz que não sente o rabicho.


 

143


 

Também co' aquela mudança,

Ninguém notou diferença.

Ficaram todos na crença

Que o dono é quem dirigia;

O que o Chimango fazia

Dependia de licença.


 

144


 

Tinhas as penas de pavão,

Mas não passava de gralha,

Era figura de palha

Para espantar passarinho;

Armação de pau de pinho

Que nem serve pra cangalha.


 

145


 

Ou por sorte, ou por feitiço,

Ou capricho do destino,

O certo é que o teatino

Tornou-se enfim um graúdo,

Chegando a abocanhar tudo,

Tornando-se um pente fino.


 

146


 

Foi ansim como les conta,

Neste fogão, junto ao rio,

Quem muita coisa já viu

Quer na guerra, quer na paz;

Chimango foi capataz

Por muitos anos a fio.